Por que, mesmo com decisão judicial favorável, o credor
ainda enfrenta um caminho longo e incerto para receber
No Brasil, vencer uma ação judicial não significa,
necessariamente, resolver o problema.
Para muitos credores, a sentença é apenas o início de uma nova batalha — mais
lenta, mais desgastante e, muitas vezes, frustrante.
A promessa de efetividade do processo civil esbarra, na
prática, em um sistema que ainda falha justamente onde deveria ser mais
eficiente: na entrega do resultado.
A pergunta é inevitável:
por que, mesmo depois de ganhar, o credor ainda não recebe?
O cumprimento de sentença e a promessa do CPC/2015
O Código de Processo Civil de 2015 buscou simplificar e dar
maior efetividade à fase de cumprimento de sentença.
A ideia era clara: transformar o processo em um instrumento capaz de realizar
concretamente o direito reconhecido.
Entre as inovações, destacam-se:
- A
unificação entre conhecimento e execução
- A
possibilidade de aplicação de multa e honorários pelo não pagamento
voluntário
- A
ampliação de mecanismos de constrição patrimonial
Na teoria, o modelo é moderno.
Na prática, o resultado ainda está aquém do esperado.
O grande obstáculo: encontrar patrimônio
O principal problema não está na decisão judicial.
Está na sua execução.
Em muitos casos, o devedor simplesmente:
- não
possui bens em seu nome
- oculta
patrimônio
- utiliza
terceiros para blindagem patrimonial
O sistema, então, entra em um ciclo repetitivo:
- tentativa
de penhora
- resultado
negativo
- nova
tentativa
- mais
frustração
Ferramentas como SISBAJUD, RENAJUD e INFOJUD ajudam — mas
não resolvem completamente o problema.
O processo avança… mas o dinheiro não aparece.
A cultura da inadimplência estratégica
Há um fenômeno silencioso, mas extremamente relevante:
a inadimplência estratégica.
Alguns devedores sabem que:
- o
processo é demorado
- os
mecanismos de execução têm limitações
- o
custo do tempo joga a seu favor
Resultado?
·
Preferem não pagar.
·
Apostam no desgaste do credor.
·
Contam com a ineficiência do sistema.
E, infelizmente, muitas vezes estão certos.
O impacto real na advocacia e no jurisdicionado
Para o credor, a sensação é de injustiça.
Ele:
- investe
tempo e recursos
- obtém
uma decisão favorável
- mas
não vê o resultado concreto
Para o advogado, o desafio é ainda maior:
- lidar
com a frustração do cliente
- explicar
a morosidade
- manter
a confiança no sistema
E isso gera um efeito perigoso:
a perda de credibilidade do próprio Judiciário.
Estratégia: o cumprimento de sentença começa antes da
sentença
Aqui está um ponto que precisa ser dito com clareza:
o cumprimento de sentença não começa depois da decisão.
Ele começa lá atrás, na fase de conhecimento.
Advogados estratégicos já atuam pensando na execução:
- investigam
a situação patrimonial do devedor
- estruturam
pedidos que facilitem a futura cobrança
- utilizam
medidas cautelares quando possível
- buscam
antecipar riscos de inadimplemento
Quem só pensa na execução depois que ganha… já começou
atrasado.
Caminhos para uma execução mais eficiente
Não existe solução simples. Mas existem caminhos.
Entre eles:
- uso
inteligente das ferramentas eletrônicas de busca de bens
- atuação
investigativa mais ativa do advogado
- pedidos
de medidas atípicas (quando cabíveis)
- pressão
processual estratégica sobre o devedor
Além disso, é preciso avançar institucionalmente:
- maior
integração de bancos de dados
- aprimoramento
das ferramentas judiciais
- combate
efetivo à fraude e à ocultação patrimonial
Posicionamento: o sistema precisa entregar o que promete
O processo civil não pode ser apenas um mecanismo de
reconhecimento de direitos.
Ele precisa ser, sobretudo, um instrumento de realização desses direitos.
Enquanto o credor continuar ganhando no papel e perdendo na
prática, haverá uma distorção grave no sistema de justiça.
A execução não pode ser o elo fraco do processo.
Ela precisa ser o seu ponto de força.
Conclusão: justiça que não se concretiza gera descrédito
A crise do cumprimento de sentença não é apenas técnica.
Ela é institucional.
Porque, no final das contas, o que está em jogo não é apenas
o crédito.
É a confiança no sistema.
E um Judiciário que decide, mas não entrega, corre o risco
de perder aquilo que lhe é mais essencial:
a credibilidade.
Esdras Dantas de Souza
Advogado, Professor e Presidente da Associação Brasileira de Advogados (ABA)
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